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No RN, 18,39% se abstêm e participação volta ao centro do debate

Docente da UFRN relaciona quase 489 mil ausências a desigualdade, dificuldade de deslocamento e descrédito na política

Por Redação Os Três Poderes ·

No RN, 18,39% se abstêm e participação volta ao centro do debate

No primeiro turno das eleições de 2026, o Rio Grande do Norte teve quase 489 mil eleitores que não compareceram às urnas, o equivalente a 18,39% do total apto a votar. Para João Emanuel Evangelista, professor aposentado de Ciências Sociais da UFRN, o índice revela um fenômeno complexo, atravessado por condições sociais e percepções sobre a política.

O que está por trás da ausência

Evangelista argumenta que a abstenção não se explica por uma causa única. Em sua análise, renda, escolaridade, idade e gênero pesam no comparecimento, assim como entraves práticos para chegar ao local de votação.

O pesquisador também associa o não comparecimento à desconfiança em relação aos representantes e à ideia de que o voto pouco altera a realidade, o que reduziria o engajamento de parte do eleitorado. Ele ressalta que ainda faltam investigações capazes de mapear com precisão as motivações individuais de quem se abstém.

Desigualdade e deslocamento

Para ilustrar como variáveis sociais afetam a ida às urnas, o professor menciona um estudo publicado em 2025 que examinou eleições em Mato Grosso do Sul entre 2012 e 2024. Em 2022, a taxa de abstenção alcançou 56,06% entre pessoas analfabetas e ficou em 10,50% entre quem concluiu o ensino superior. Ele destaca que os achados não devem ser transpostos automaticamente para o Rio Grande do Norte.

Além da escolaridade, frequentemente associada à renda e à exclusão digital, o custo e a logística para chegar à seção eleitoral aparecem como entraves. É comum que eleitores que mudaram de município mantenham o título no local de origem, exigindo deslocamentos que podem aumentar a ausência entre quem dispõe de menos recursos.

Representação e vínculos locais

Na visão de Evangelista, o descompasso entre promessas de campanha e a prática de governantes e parlamentares alimenta o desencanto. Ele também aponta a influência de redes de intermediação nos municípios, em que lideranças locais operam como ponte de acesso a serviços, reforçando dinâmicas clientelísticas. Mecanismos como emendas parlamentares, afirma, teriam contribuído para institucionalizar esse tipo de relação ao consolidar circuitos de influência.

Segundo turno e mobilização

Com a chegada do segundo turno, o pesquisador avalia que reconvocar quem faltou na primeira votação é um desafio central das campanhas. Ele chama atenção para o grupo com mais de 70 anos, para o qual o voto é facultativo, e reforça a necessidade de estudos que ajudem a compreender melhor as razões particulares da abstenção.

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