Anistia vai denunciar Milei à ONU e à CIDH por ataques a jornalistas
ONG afirma que falas do presidente argentino incitam hostilidade e colocam profissionais de imprensa em risco
Por Redação Os Três Poderes ·

A Anistia Internacional informou que apresentará denúncias à Organização das Nações Unidas (ONU) e à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) contra o presidente argentino, Javier Milei, por hostilidade e incitação contra jornalistas.
Declarações e caso na Justiça
Segundo a organização, as falas ocorreram após o arquivamento, na última sexta-feira (23), do caso conhecido como “criptogate”, que investigava suspeitas relacionadas à criação da criptomoeda $Libra. De acordo com a fonte judicial citada no processo, o juiz federal Marcelo Martínez De Giorgi concluiu que não houve delitos. Nesse contexto, Milei xingou profissionais de imprensa que fizeram reportagens investigativas e disse que deveriam “queimar na fogueira”, citando nominalmente Hugo Alconada Mon, Carlos Pagni, Paulino Rodrígues, Natalia Volosin e Luis Novaresio.
Na rede social X, o presidente escreveu que foi alvo de “tremenda operação política e midiática cujo único objetivo era prejudicar a presidência para fins políticos de conspiração golpista”, classificando ainda jornalistas como “subornados e mercenários da mentira”.
O que diz a Anistia e os dados do setor
Para a Anistia Internacional, as declarações aprofundam o assédio à imprensa, colocam em risco quem informa e deterioram as garantias do debate democrático. A ONG considerou que a referência a “queimar na fogueira” evoca violência extrema e representa uma “escalada grave e inadmissível na hostilidade presidencial contra a imprensa”.
A diretora-executiva da Anistia na Argentina, Mariela Belski, afirmou que, ao apontar publicamente jornalistas e utilizar imagens de violência para se referir a quem questiona a gestão, o presidente contribui para um clima de intimidação que pode abrir caminho para novas agressões.
Para fundamentar a representação, a Anistia citou o Monitoramento da Liberdade de Expressão do Fórum de Jornalismo Argentino, que registrou 278 ataques contra jornalistas em 2025 — 55% a mais que em 2024 e o maior número desde 2008. Milei foi identificado como autor de 119 desses episódios, além de haver 139 casos de discursos estigmatizantes, 20 ações judiciais e 28 restrições de acesso à informação.
CIDH e reações
A ONG relembra que, em novembro de 2025, participou de audiência na CIDH sobre liberdade de expressão na Argentina. Na ocasião, foram relatados aumento de agressões, violência on-line, assédio judicial e ataques durante a cobertura de protestos. A CIDH solicitou informações ao Estado argentino e manifestou interesse em visitar o país. A Comissão é um órgão autônomo da Organização dos Estados Americanos responsável por zelar pela aplicação da Convenção Americana de Direitos Humanos.
O Sindicato de Imprensa de Buenos Aires divulgou nota de repúdio, na qual afirmou que o presidente “voltou a ultrapassar um limite gravíssimo” e que a incitação a “queimar na fogueira” exige reação imediata do meio político e midiático para frear ataques à profissão.
Carla Gaudensi, secretária da Federação Argentina de Trabalhadores de Imprensa, informou que a entidade se somará à representação da Anistia Internacional.
Brasileiro barrado
No dia 12, o jornalista brasileiro Rogério Tomaz Jr. foi impedido de entrar na Argentina ao desembarcar em Buenos Aires. Segundo as autoridades migratórias argentinas, houve cancelamento de sua residência permanente e foi estabelecida proibição de reingresso por cinco anos.
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