Porto de Natal inicia exportação de gado vivo; governo projeta R$ 50 milhões
Primeiras operações somam 6,4 mil bovinos para Arábia Saudita e Líbano; participação de pequenos produtores e alertas sobre segurança e bem-estar
Por Redação Os Três Poderes ·

O Porto de Natal deu início à exportação de bovinos vivos com duas operações previstas que totalizam 6,4 mil animais — 2,7 mil com destino à Arábia Saudita e 3,7 mil ao Líbano —, movimentação estimada em cerca de R$ 50 milhões, segundo o secretário estadual da Agricultura, da Pecuária e da Pesca, Guilherme Saldanha.
Participação de pequenos produtores e perspectivas
De acordo com Saldanha, a abertura de mercado externo amplia as possibilidades de comercialização e pode atrair novos investimentos para o setor. Ele afirmou que a expectativa do governo é manter a sequência de embarques e impulsionar a produção pecuária no estado.
Na primeira remessa, houve participação de agricultores familiares e pequenos criadores: nos 30 dias que antecederam o embarque, 13 produtores venderam entre um e dez bovinos, enquanto outros quatro comercializaram de 11 a 20 animais, segundo o secretário. Saldanha não descartou que, com aumento da oferta, um frigorífico venha a ser instalado futuramente no RN, mas ressaltou que não há anúncio de investimento nem prazo definido.
Impacto econômico e operação no porto
Além dos criadores, a movimentação prevista tende a alcançar empresas de logística, fornecedores de combustível, trabalhadores portuários e diversos prestadores de serviço. A habilitação do Porto de Natal para esse tipo de carga abre uma nova rota de escoamento para a produção regional. A projeção apresentada é que, a depender da demanda externa, da oferta e da capacidade operacional, o terminal possa chegar a movimentar mais de 100 mil bovinos ao ano.
Segurança das embarcações e bem-estar animal
A expansão dos embarques também gerou questionamentos sobre segurança e bem-estar animal. Segundo levantamento da organização Mercy For Animals (MFA), o navio Dalal F — programado para levar gado ao Líbano — foi construído em 1980 e convertido para transporte de bovinos em 2016. A entidade relata que a embarcação foi alvo de quatro vistorias portuárias entre 2024 e 2025, realizadas no Líbano, no Egito e na Espanha. Nessas verificações, foram apontadas 15 não conformidades distribuídas em nove categorias, envolvendo, por exemplo, salvaguardas de navegação, aparato de emergência, integridade estrutural e controle de poluição. De acordo com a MFA, desde julho de 2023 o navio hasteia a bandeira da Guiné-Bissau, país classificado no grupo de pior desempenho no Memorando de Paris. O histórico de inspeções, por si só, não comprova irregularidades na operação atual.
“Para os animais, o processo de exportação compreende uma sequência de situações estressantes e debilitantes, do transporte terrestre desde o interior do Brasil até o desembarque nos países de destino, passando por semanas de confinamento em alto-mar sob condições extremamente insalubres”, afirmou George Sturaro, diretor de Relações Governamentais e Políticas Públicas da MFA no Brasil.
A entidade menciona ainda possíveis reflexos na cidade e no meio ambiente, a exemplo de mais caminhões circulando, resíduos e mau cheiro nas imediações do terminal. Como precedentes no país, são citados o naufrágio do navio Haidar, no Pará, em 2015, e o incêndio no North Star 1, em São Sebastião, em março de 2026.
A agenda da Companhia Docas do Rio Grande do Norte (Codern) indica a escala do Dalal F no Porto de Natal entre 28 e 30 de outubro, tendo Beirute como destino informado.
Regras sanitárias e próximos passos
Para a exportação de animais vivos, o Ministério da Agricultura estabelece protocolos sanitários e operacionais, incluindo a habilitação das instalações. Para sustentar a continuidade dos embarques, o governo estadual aponta a necessidade de manter as condições sanitárias, a infraestrutura de transporte e o atendimento às exigências dos países compradores.
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