Indústria vê risco de déficit de 15,2 milhões de CBIOs em 2035
CNI defende ajuste nas metas do RenovaBio e criação de comitê para acompanhar a oferta de biocombustíveis
Por Redação Os Três Poderes ·
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou nesta quarta-feira (28/10) estudo que projeta um déficit de 15,2 milhões de Créditos de Descarbonização (CBIOs) em 2035 em relação às metas indicativas do RenovaBio. A entidade defende rever a trajetória dessas metas para adequá-las à capacidade efetiva de produção de biocombustíveis.
Estimativas e metodologia
De acordo com o estudo, intitulado “Combustíveis no Brasil: análise do mercado e perspectivas para a descarbonização”, a projeção combina as estimativas de produção do Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) 2035 com os fatores médios de emissão de CBIOs de 2025 e as metas indicativas definidas pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). Essas metas preveem a aquisição de 73,45 milhões de créditos em 2035.
Na hipótese de compensação da lacuna apenas com etanol hidratado, seriam necessários cerca de 15,2 bilhões de litros adicionais em 2035, elevando a demanda total para aproximadamente 61,3 bilhões de litros, ante 46,2 bilhões no cenário de referência do estudo.
Preços e riscos de oferta
Segundo a CNI, a insuficiência de créditos pode pressionar os preços dos CBIOs e elevar custos das distribuidoras. O levantamento cita 2022, quando a emissão ficou 4,54 milhões abaixo da meta anual e o preço médio do crédito passou de R$ 36, no ano anterior, para R$ 101.
A entidade aponta maior risco de descompasso nas cadeias de diesel verde e de combustível sustentável de aviação (SAF), que dependem da implantação de projetos industriais. Para o diesel verde, uma mistura obrigatória de 3% representaria demanda potencial de 2,5 bilhões de litros em 2035. No SAF, a demanda regulatória deve crescer com a implementação do Programa Nacional de Combustível Sustentável de Aviação (ProBioQAV) a partir de 2027, podendo variar entre 3,2 bilhões e 9,1 bilhões de litros em 2037, a depender da intensidade de carbono e de mecanismos internacionais de compensação.
Diferenças entre cenários
As estimativas estão sujeitas a mudanças conforme as premissas de produção e de emissão de créditos ao longo da próxima década. O PDE 2036, divulgado pelo Ministério de Minas e Energia (MME) e pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e atualmente em consulta pública, traz projeções atualizadas: produção nacional de etanol de 52,7 bilhões de litros em 2036 e de biodiesel de 14,8 bilhões de litros, além de expansão de SAF, diesel verde e biometano, com investimentos estimados em R$ 143 bilhões entre 2027 e 2036. Como os estudos adotam horizontes e premissas diferentes, as projeções não são diretamente comparáveis.
Biodiesel e novas misturas
Para o biodiesel, a CNI projeta demanda de cerca de 18 bilhões de litros em 2035, considerando aumento gradual da mistura obrigatória até 20% e crescimento do mercado voluntário. A capacidade instalada atual atenderia esse caminho apenas até 2027, exigindo a entrada de projetos de expansão a partir daí.
O PDE 2036, por sua vez, mantém a mistura de 15% ao longo do horizonte decenal. A EPE avalia que aumentos dependem da comprovação de viabilidade técnica e de novas decisões do CNPE. Conforme informou o MME em agosto, testes para misturas superiores a B15 estão em andamento, com previsão de conclusão de uma etapa até fevereiro de 2027. No limite de 25% autorizado pela Lei do Combustível do Futuro, a CNI calcula demanda de 22,2 bilhões de litros em 2035, acima da capacidade potencial considerada no estudo (cerca de 18,6 bilhões de litros anuais).
Propostas da indústria
A CNI sugere criar um Comitê Permanente de Monitoramento de Biocombustíveis, com participação do governo e de agentes do setor, para acompanhar investimentos, capacidade e matérias-primas, podendo recomendar ajustes em percentuais de mistura.
Também propõe uma política de comércio exterior para biocombustíveis, prevendo facilitação de importações em caso de insuficiência doméstica e instrumentos temporários para gestão de exportações em cenários de escassez ou alta de preços. Para SAF e diesel verde, a entidade defende mecanismos de contratação de longo prazo, financiamento e compartilhamento de riscos, com possibilidade de leilões e contratos inspirados no mercado de biodiesel.
Contexto
O RenovaBio é a política nacional de biocombustíveis que estabelece metas anuais de descarbonização para as distribuidoras. Os CBIOs são créditos emitidos por produtores validados, e sua aquisição pelas distribuidoras serve para comprovar o cumprimento das metas. A publicação do estudo ocorre às vésperas do encerramento da consulta pública do MME sobre as metas do RenovaBio para 2027 a 2036, previsto para quinta-feira (29/10).
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