Reforma do Código Civil reacende debate sobre direitos de crianças e adolescentes
Propostas sobre autoridade parental e intimidade familiar geram alertas à luz do ECA e de dados sobre violência no ambiente doméstico
Por Redação Os Três Poderes ·

Em tramitação no Congresso, o Projeto de Novo Código Civil (PL 4/2025) reacendeu o debate sobre como dispositivos relativos à autoridade parental e à proteção da vida familiar podem impactar a garantia de direitos de crianças e adolescentes no país.
O que está em debate
O texto propõe alterar o artigo 1.634 do Código Civil, que define as atribuições da autoridade parental, incluindo a possibilidade de pais exigirem dos filhos “obediência e respeito”. Também dispõe, no artigo 1.511-C, que nenhuma pessoa, seja de natureza pública ou privada, pode intervir na convivência e comunhão de vida própria da família.
Tais previsões são consideradas sensíveis porque sua interpretação pode tanto fortalecer quanto fragilizar mecanismos de proteção quando as violações ocorrem dentro de casa, em um contexto no qual já existem normas de proteção integral à infância e à adolescência.
Contexto legal e social
Desde a Constituição de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA/1990), crianças e adolescentes são reconhecidos como sujeitos de direitos, com prioridade absoluta na efetivação desses direitos. Normas posteriores reforçaram esse conjunto, como a Lei nº 13.010/2014 (Lei Menino Bernardo), a Lei nº 13.431/2017 (escuta e depoimento especial), a Lei nº 14.344/2022 (Lei Henry Borel) e a Lei nº 14.826/2024 (Parentalidade Positiva).
De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026, em 2025 foram registradas 84.388 vítimas de estupro e estupro de vulnerável, sendo 48.038 crianças e adolescentes de até 14 anos (64,8% do total). Em 65,6% desses casos, o crime aconteceu na residência; em 59,2%, o autor era alguém da família; e 85,6% das vítimas eram do sexo feminino. Crimes ligados à parentalidade, como abandono de incapaz, abandono material e maus-tratos, também cresceram entre 2021 e 2025.
Pontos de atenção na redação
A inviolabilidade da vida privada familiar é valor constitucional, mas não serve de salvo-conduto para práticas que atentem contra direitos. Por isso, normas que coíbam “ingerências indevidas” não podem se converter em obstáculos à identificação de indícios de violência e à atuação dos órgãos de proteção.
Quanto à referência à exigência de “obediência e respeito”, o ponto de cautela é evitar que ela seja confundida com sujeição unilateral dos filhos aos pais. O ordenamento jurídico já veda castigos físicos e tratamentos cruéis ou degradantes e toma a dignidade de crianças e adolescentes como parâmetro para orientação e definição de limites.
O que muda para o RN
Qualquer mudança no Código Civil terá alcance nacional, valendo também para o Rio Grande do Norte. Conciliar a proteção da intimidade familiar com o dever de prevenir e enfrentar violações é essencial para a atuação dos conselhos tutelares, serviços de proteção, Ministério Público e Judiciário no estado, todos regidos pela Constituição, pelo ECA e pelas leis correlatas.
O avanço do projeto exigirá atenção à redação final e à interpretação das normas, de modo que a linguagem civil reafirme crianças e adolescentes como sujeitos de direitos e não dificulte a proteção quando a violência ocorrer no âmbito doméstico.
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