Dívida pública: economistas questionam cortes e destacam papel dos juros
Professores da Unicamp e da UFRRJ criticam foco exclusivo em ajuste; BC aponta inflação e déficits para justificar juros elevados
Por Redação Os Três Poderes ·

Economistas de universidades públicas contestam que cortes de gastos primários sejam o principal caminho para estabilizar a dívida pública e apontam os juros elevados como fator central na alta do indicador. O Banco Central, por sua vez, afirma que a redução da taxa depende da realização de superávits primários.
O que dizem os críticos do corte de gastos
Para a professora do Instituto de Economia da Unicamp, Simone Deos, não há risco de calote da dívida interna em moeda nacional nem de alta inflacionária por esse motivo. Segundo ela, a comparação entre o orçamento público e o de uma família não se aplica ao Estado.
“Isso não tem maiores consequências porque a dívida pública é em reais, não em moeda estrangeira. A história não mostra nenhum país que não tenha conseguido pagar a sua dívida interna, em moeda nacional, por falta de recursos. Haveria risco se a dívida fosse em dólares”.
O professor Fernando Henrique Lemos Rodrigues, da UFRRJ, afirma que a dívida como proporção do PIB não é, hoje, a prioridade e está em patamar compatível com economias de perfil semelhante. Ele critica a pressão por cortes generalizados, avaliada por ele como uma forma de manter os juros elevados ao atrelar reduções da taxa à obtenção de superávits primários.
Juros no centro do debate
De acordo com o Banco Central, nos últimos 12 meses o país desembolsou cerca de R$ 1,1 trilhão em juros, o equivalente a 8,86% do PIB, e, ao longo de 2026, os juros nominais foram o principal fator para a alta da relação dívida/PIB. Levantamento da consultoria Moneyou citado no debate aponta a taxa de juros real brasileira entre as mais altas do mundo.
O Banco Central justifica o nível dos juros, entre outros motivos, por pressões inflacionárias e pelos déficits fiscais primários, sustentando que gastos acima da arrecadação pressionam os preços.
Comparações e alternativas
Segundo dados de 2024 do Fundo Monetário Internacional (FMI), países como Japão, Estados Unidos, Reino Unido, Itália, Índia e Canadá têm dívidas públicas iguais ou superiores à brasileira, o que é usado por especialistas para relativizar a necessidade de um ajuste baseado em cortes amplos.
Como alternativa, Simone Deos defende uma estratégia coordenada que combine redução dos juros e atuação sobre o câmbio, com uso das reservas internacionais para atenuar pressões de preços, preservando políticas sociais. Já Fernando Rodrigues propõe fortalecer o orçamento social e ampliar investimentos de estatais para impulsionar renda e arrecadação no médio prazo.
O que muda para o RN
Definições sobre dívida e juros têm efeitos diretos sobre a economia real: taxas mais altas encarecem o crédito, afetam investimentos e pressionam as contas públicas de estados e municípios, inclusive no Rio Grande do Norte. Mudanças na política fiscal e monetária influenciam receitas, custo de financiamento e o ritmo de atividade regional.
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