Conselheiro quilombola registra denúncia por racismo e intolerância religiosa em Natal
Caso foi registrado na delegacia especializada e motivou notas de repúdio de entidades do movimento negro potiguar
Por Redação Os Três Poderes ·

O conselheiro estadual de Promoção da Igualdade Racial, Aércio de Lima Gomes, apresentou à Polícia Civil do Rio Grande do Norte uma queixa contra o pastor José de Oliveira Carlos Filho por publicações nas redes sociais que, segundo o boletim de ocorrência, continham ataques à sua aparência, ao seu cabelo e à sua identidade racial e religiosa. A ocorrência foi registrada em 22 de outubro de 2026 na Delegacia Especializada de Combate a Crimes de Racismo, Intolerância e Discriminação, em Natal.
O que foi relatado à polícia
De acordo com o registro policial, Aércio, que se identifica como homem negro e quilombola, tomou conhecimento dos vídeos em 21 de outubro, enquanto estava em Parnamirim. Segundo o boletim, uma das postagens teria usado a imagem do conselheiro impressa em um cartaz e feito referências depreciativas ao seu cabelo e às tranças, além de associá‑lo ao termo “satanista”.
O documento também informa que o autor das publicações teria mencionado supostos contatos do conselheiro com integrantes de facções, fato que, segundo Aércio, aumentou seu receio pela integridade física. Em uma segunda postagem, registrada na manhã de 22 de outubro, a denúncia aponta uso de inteligência artificial para manipular a imagem do conselheiro em conteúdo descrito como de intolerância e expulsão religiosa.
O boletim de ocorrência traz enquadramentos previstos na Lei nº 7.716/1989 — relativos a discriminação ou preconceito por raça, cor, etnia e religião — e também artigo que trata de injúria ou incitação à discriminação em contexto de diversão. A classificação policial não configura, por si só, decisão sobre responsabilidade penal do investigado.
Repercussão e manifestações
A denúncia levou a manifestações de solidariedade no meio ativista do estado. O Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial do Rio Grande do Norte (CONSEPIR/RN) divulgou nota pública em 22 de outubro em que afirma que as declarações atribuídas ao pastor atingem a dignidade do conselheiro e reproduzem práticas discriminatórias. No documento, o CONSEPIR/RN diz que "é inadmissível que características físicas e elementos da identidade de uma pessoa negra sejam utilizados como instrumentos de ridicularização, constrangimento ou desqualificação" e pede apuração pelos órgãos competentes.
O Movimento Negro Unificado no Rio Grande do Norte (MNU/RN) também divulgou carta de apoio a Aércio, afirmando que ataques à aparência e à identidade racial ultrapassam a experiência individual e afetam a população negra como um todo. Ao final da carta, o movimento afirma que "Denunciar o racismo é um compromisso coletivo!"
Situação processual e posicionamentos
O boletim indica que Aércio juntou as mídias das publicações ao registro feito na delegacia especializada, mas não traz, até o momento, informações sobre diligências subsequentes, intimação do pastor ou desfecho judicial. A própria Polícia Civil é a responsável por conduzir as investigações na unidade que trata de crimes relacionados a racismo, intolerância e discriminação.
Em mensagem citada no boletim, Aércio relatou o impacto emocional dos ataques: "Ontem eu fiquei muito mal", disse ao explicar como se sentiu após as publicações. Não há no material disponível informação confirmada sobre eventual manifestação do pastor citado na denúncia.
Contexto e implicações
Casos que envolvem ofensas por raça, cor ou religião podem ser apurados tanto na esfera penal quanto administrativa, dependendo da investigação e das provas reunidas. A existência de nota de repúdio de conselhos e movimentos sociais costuma ampliar a visibilidade do caso e a pressão por esclarecimento, o que pode resultar em diligências policiais mais rápidas ou em ações civis por danos morais, caso a apuração conclua pela responsabilidade do autor das publicações.
O caso segue sob apuração na Delegacia Especializada de Combate a Crimes de Racismo, Intolerância e Discriminação, em Natal. A denúncia e as manifestações de organizações representam, segundo elas, um pedido de que episódios de discriminação não sejam naturalizados nem tratados como mera divergência pessoal.
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