Cortes de energia renovável disparam e geram R$ 15,5 bilhões em prejuízos
Levantamento mostra aumento de 52,7% nos cortes por sobra de energia entre jan–set de 2026 e aponta disputa sobre quem arca com perdas
Por Redação Os Três Poderes ·

Os cortes de geração eólica e solar por sobra de energia na rede elétrica somaram 18 TWh entre janeiro e setembro de 2026, alta de 52,7% em relação ao mesmo período do ano anterior, e já acumulam prejuízos de R$ 15,5 bilhões para os geradores, segundo estudo da consultoria Volt Robotics.
Contexto e metodologia
O levantamento, que a Volt apresentará no Brazil Windpower 2026, considera apenas os eventos classificados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) como ENE — ou seja, restrições motivadas por desequilíbrios momentâneos entre oferta e carga em períodos de baixa demanda e alta produção renovável. ONS também registra outras categorias: REL (problemas de escoamento ou gargalos de transmissão) e CNF (limites de confiabilidade operativa do Sistema Interligado Nacional).
Além das categorias oficiais, a consultoria inclui no cálculo fatores que, na avaliação dos autores, agravam o problema: a inflexibilidade de usinas termelétricas mantidas em operação por motivos contratuais ou operacionais e o crescimento da micro e minigeração distribuída (MMGD), que responde por 52,43% do excedente sistêmico apontado no estudo.
Paradoxo das térmicas e crítica à classificação
O estudo aponta uma aparente contradição: cortes por suposta sobreoferta ocorrem em horários em que o Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) está elevado e termelétricas mais caras permanecem ligadas. Na visão do relatório, isso indica que nem sempre a causa dos cortes é uma abundância pura de energia, mas sim necessidades de flexibilidade ou restrições de transmissão.
“Não se pode chamar de sobreoferta energética um corte que ocorre em momentos de PLD elevado e com usinas termelétricas ligadas. Se há térmicas em operação, o sistema está respondendo a uma necessidade de flexibilidade ou a restrições de transmissão, e não a uma abundância pura de energia. Tratar isso como excesso de geração dificulta a identificação da causa raiz e a identificação de uma solução consistente”, disse o CEO da Volt.
Disputa pelo rateio dos custos
Em 6 de outubro, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou novas regras que incluem usinas eólicas, solares e hidrelétricas na divisão dos custos quando os cortes ocorrem por razão energética, com um período de testes previsto. A Volt critica o modelo de rateio direto e igualitário, argumentando que ele pode transferir indevidamente custos entre agentes com naturezas distintas de geração.
Segundo o estudo, hidrelétricas dispõem de instrumentos de gestão de reservatórios e mecanismos de mitigação que não se aplicam de igual forma a eólicas e solares, que perdem a oportunidade de geração quando são cortadas. Para remediar a assimetria, a consultoria propõe um “passo zero” regulatório: criar uma metodologia pública, transparente e auditável para classificar a causa de cada corte antes de definir como dividir financeiramente os prejuízos, incluindo no cálculo a contribuição da geração distribuída.
Impactos e próximos passos
O crescimento dos cortes e o debate sobre alocação de custos elevam a incerteza para projetos renováveis e podem afetar decisões de investimento e contratos no setor. A apresentação da Volt no encontro de energia eólica deve aprofundar as propostas metodológicas e pressionar por mudanças na forma como o ONS e os reguladores classificam e rateiam os eventos de curtailment.
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