Com juro neutro maior, IFI projeta DBGG em 124,4% do PIB em 2036
Órgão do Senado eleva juro real neutro para 6,1% e estima despesa com juros acima de 10% do PIB em 2036
Por Redação Os Três Poderes ·

A Instituição Fiscal Independente (IFI), ligada ao Senado, publicou nesta quinta-feira (29.out.2026) o 117º Relatório de Acompanhamento Fiscal e atualizou a taxa de juro real neutro para 6,1% ao ano. Com essa hipótese mais alta, a IFI passou a projetar a dívida bruta do governo geral em 124,4% do PIB em 2036, acima dos 115,0% estimados anteriormente.
Principais números do relatório
- Dívida bruta em 2036: projeção passa de 115,0% para 124,4% do PIB, de acordo com a IFI;
- Despesa nominal com juros em 2036: sobe de 8,4% para 10,3% do PIB, o que supera R$ 1,5 trilhão por ano;
- Resultado primário necessário para estabilizar a dívida: vai de 2,1% para 2,9% do PIB;
- Probabilidade de a dívida exceder 90% do PIB até 2030: aumenta de 78,9% para 81,6%.
Por que o juro neutro importa
O juro real neutro, descontada a inflação, é a taxa que não acelera nem freia a atividade econômica. Quanto mais elevado, maior tende a ser o custo de carregar a dívida pública no horizonte de longo prazo. Segundo a IFI, a nova estimativa resulta da combinação de 25 métricas empíricas em 7 métodos distintos (com base em pesquisas de mercado, precificação de títulos e modelos econométricos). Considerando o spread médio de 0,7 ponto percentual entre títulos públicos e Selic, o custo real de longo prazo da dívida alcança 6,3% ao ano, calcula a instituição.
Gastos fora do resultado primário
De acordo com a IFI, os dispêndios financeiros com concessão de crédito e aportes em fundos saíram de R$ 71,7 bilhões em 2023 e totalizaram R$ 220,3 bilhões até outubro de 2026. Após deduzir amortizações e a devolução de juros ao Tesouro, a saída líquida de caixa em 2026 ficou em R$ 180,5 bilhões (1,2% do PIB).
Programas iniciados ou ampliados a partir de 2024 responderam por 68% dos desembolsos de 2026. Entre eles: Minha Casa, Minha Vida (Fundo Social) – R$ 35 bilhões; Fundo Clima – R$ 34 bilhões; Move Motoristas (para taxistas e motoristas de aplicativo) – R$ 30 bilhões; Plano Brasil Soberano (Fundo de Garantia à Exportação) – R$ 22 bilhões. A IFI estima benefício creditício, em valor presente, entre R$ 10,2 bilhões e R$ 15,9 bilhões nas operações contratadas em 2026.
Fundos garantidores e governança
Conforme a IFI, em 2025 a União resgatou R$ 10 bilhões em cotas dos fundos garantidores FGO, FGI e FGEDUC, registrados como receita primária. No mesmo período, o FGO e o FGI PEAC apuraram perda patrimonial de R$ 8,2 bilhões em razão da quitação de garantias inadimplidas.
O Fundo de Incentivo à Permanência e Conclusão Escolar (Pé-de-Meia) movimentou R$ 27,4 bilhões entre 2023 e 2026, sendo R$ 9 bilhões oriundos de transferências do FGEDUC e do FGO, que passaram a ser cotistas sem trânsito pelo Orçamento da União. Em dezembro de 2025, o FIPEM apresentava patrimônio líquido negativo de R$ 3 bilhões, segundo o relatório. A IFI avalia que essa prática diverge de recomendações da OCDE e do FMI e menciona o Acórdão nº 1.372/2026 do Tribunal de Contas da União.
Orçamento de 2027: Previdência e Assistência
Para 2027, a IFI projeta que o déficit nominal será influenciado por juros de 8,6% do PIB e identifica risco de subestimativa de despesas no PLOA. No RGPS, a despesa estimada é de R$ 1,215 trilhão. A IFI informa que a conta não incorporou a decisão do STF na ADI 6.309, que considerou inconstitucional a idade mínima para aposentadoria especial, com impacto estimado de R$ 13 bilhões em 2027.
Outros pontos destacados pela IFI: a fila do INSS diminuiu para 1,3 milhão de pessoas; a taxa de indeferimento de benefícios por incapacidade atingiu 54,1%; e o estoque de salários-maternidade subiu de 107 mil para 285 mil após o STF eliminar a carência para seguradas individuais.
Na Assistência Social, o PLOA reserva R$ 154,2 bilhões ao BPC. O governo prevê economia de R$ 8,8 bilhões com revisões cadastrais, estimando 782 mil cessações e queda do estoque médio para 6,3 milhões de beneficiários. A IFI pondera, entretanto, que o total de beneficiários já havia alcançado 6,6 milhões em agosto de 2026, com 27,3% dos benefícios concedidos por decisão judicial.
O que pode mudar para o RN
Para a IFI, a combinação de juros mais altos e trajetória de dívida mais elevada tende a encolher o espaço fiscal da União. Em cenários assim, costuma haver restrição a novos gastos e a investimentos, o que pode afetar repasses e a implementação de políticas nacionais que alcançam estados e municípios, inclusive o Rio Grande do Norte e a capital, Natal.
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