Aos 91 anos, Eunice Machado volta a votar em Natal após anos sem ir às urnas
Eleitora participou do segundo turno em 25 de outubro; sua história familiar foi marcada pela repressão da ditadura militar no RN
Por Redação Os Três Poderes ·

Aos 91 anos, Eunice Lessa Machado voltou a votar no segundo turno da eleição de 2026, realizado em 25 de outubro, em Natal. Depois de não comparecer a pleitos anteriores e enfrentar problemas de saúde, ela foi à seção eleitoral e votou no candidato Luiz Inácio Lula da Silva, mesmo estando desobrigada de votar pela legislação.
A participação ocorreu após a vitória de Lula no segundo turno e integrou o conjunto de registros de eleitores idosos que compareceram às urnas em diferentes cidades do país.
A história de Eunice está ligada à prisão do marido, o professor e funcionário dos Correios José Fernandes Machado. Em 1964, ele foi detido por causa da participação em movimentos sociais e no projeto “De Pé no Chão Também se Aprende a Ler”. Militares o prenderam no local de trabalho, na sede dos Correios, na Ribeira, uma semana depois do início do golpe militar. Além da demissão, Machado ficou oito meses preso.
Durante o período, militares foram à casa da família, recolheram livros e levaram Eunice para um interrogatório diante de seis oficiais, sem acompanhamento. O relato sobre o episódio descreve que ela resistiu às pressões e buscou informações sobre a integridade física do marido.
Dois anos depois, Machado foi preso novamente sob acusação de participação na explosão de uma bomba no aeroporto dos Guararapes, no Recife, que tinha como alvo o general Costa e Silva. Ele permaneceu oito dias na capital pernambucana sem contato com a família e sem poder tomar banho. José Fernandes Machado morreu em 1982, aos 50 anos. Uma escola estadual de Ponta Negra, conhecida popularmente como Machadão, leva o nome dele.
A trajetória de Eunice também aparece no documentário Heroínas do Cotidiano: Memória, Verdade e Justiça nas trajetórias de mulheres potiguares na Ditadura Militar, lançado em 2026 pela jornalista Malu Machado como trabalho de conclusão do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). A produção reúne um depoimento de Eunice e aborda ainda a história de Célia Pereira, viúva do deputado Hiram de Lima Pereira.
Hiram foi executado por militares e teve o corpo ocultado, segundo o relato apresentado na fonte. Em 15 de junho de 2026, a certidão de óbito dele foi retificada durante cerimônia no auditório da Reitoria da UFRN, junto com os registros de outras 11 vítimas da ditadura militar no Rio Grande do Norte.
O documentário apresenta as tarefas desempenhadas por mulheres durante a repressão — como cuidar dos filhos, manter a casa e procurar familiares presos — como formas de resistência. A produção está disponível no YouTube.
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